A relação com a guitarra

Vinha eu atravessando a Avenida Presidente Vargas em direção à boca do metrô da Uruguaiana. Estudava na Praça Mauá e morava na Tijuca. Na ida, pegava o 220, que fazia a ligação Usina-Praça Mauá. Na volta, costumava optar pelo metrô, para variar. Descia na Saenz Peña e subia a Desembargador Isidro, que era a minha rua.

Mas vinha eu, como dizia, na volta do colégio, atravessando a Avenida Presidente Vargas em direção à boca do metrô da Uruguaiana, quando avistei a Gabriela Discos, bem ao lado da estação. Lembrei na hora de um “vale-disco” que tinha ganho na véspera em um “amigo oculto” da turma. Era um fim de 1982 e, então com 13 anos de idade, começava a me interessar por música. Sem nenhuma ideia sobre qual disco escolher, pedi uma sugestão a um amigo. Disse-me ele que o irmão mais velho não tirava o Led Zeppelin IV da vitrola. Sugestão dada, sugestão aceita (se bem que qualquer um que ele indicasse eu compraria). Já tinha ouvido falar do Led Zeppelin e de fato achava que era música de descolado. “Vou tirar onda…”, pensei.

Disco comprado, voltei analisando a capa. Mas que capa? Não havia nenhuma indicação de que se tratava de um disco do Led Zeppelin. “Será que levei o disco certo?”. Anos depois vim a saber que se tratava de uma estratégia de marketing da banda. Obviamente, funcionou…

Na chegada em casa, lembro que fui direto ao “3 em 1” da sala e pus o disco na bandeja. A partir daí, as coisas ficam nebulosas em minha mente. Sei que minha ideia inicial era ouvir alguns segundos de cada faixa, para ganhar uma visão geral da obra. Entretanto, logo na primeira estrofe da faixa inicial (“Black Dog”), entrei em um estado de transe.

Hey, hey, mama
Said the way you move
Gonna make you sweat
Gonna make you groove

Alguns segundos de um vocal furioso, com instrumentos silenciosos. “Que diabo é isso?”. Logo depois, a explosão.  O riff mais potente que eu iria ouvir em toda a minha vida, fazendo meus ouvidos “sangrarem” pedindo mais.

Sentei e ouvi o lado A inteiro, faixa a faixa, com um olhar que não via e o cérebro a mil. Era difícil processar aquilo. Estava extasiado e ao mesmo tempo angustiado. Quando acabou, eu não tinha forças para ouvir o lado B. Aliás, levou algum tempo, talvez meses, até que eu me interessasse em conhecer as músicas do lado B. Parecia tão supérfluo…

Essa experiência transcendental me criou um problema. Eu já não queria apenas ouvir Led Zeppelin. Eu queria fazer o mesmo. Muitos amantes da música se contentam em ouvir, apreciar, criticar. Eu precisava me envolver mais diretamente com aquilo. Eu precisava tocar algum instrumento. Compartilhei minha experiência no colégio e logo encontrei colegas que tinham tido a mesma “visão”, cada qual com o seu clássico (Dark Side of the Moon – Pink Floyd, Sgt Peppers – Beatles e por aí vai). Não demorou até que ideia de formar uma banda surgisse, ainda que ninguém soubesse tocar. Os instrumentos foram distribuídos quase que na base do “quem pediu primeiro”. Convocado para uma das guitarras, voltei para casa fazendo planos de começar logo o meu aprendizado.

Havia um violão encostado em um dos quartos, no qual minha mãe costumava tocar modinhas. Como eu não me interessava por modinhas e associava o instrumento a elas, nunca tinha tido curiosidade de manuseá-lo. Mas agora era diferente. O violão seria minha iniciação no Rock and Roll. Tão logo eu o dominasse, partiria para a guitarra. Logo vi que esse violão, de tão velhinho, não ajudaria no aprendizado. Torrei a paciência dos meus pais e acabei ganhando um Giannini, novinho em folha. Para resumir a história, dos 13 aos 17 anos não houve um dia em que eu não o tenha tocado. Do primeiro riff aprendido (“Satisfaction” – Stones), da primeira música (“Patrulha Noturna” – Paralamas), até o primeiros solo (“Ovelha Negra” – Rita Lee), aporrinhei muita gente lá em casa. Repetia os fraseados ad nauseam até que minhas irmãs, agonizantes, pedissem providências às “autoridades superiores”. Dormia praticamente abraçado com o instrumento.

E tome ensaios com a banda dos músicos iniciantes  barulhentos, para desespero dos vizinhos. De tanto insistir, fomos melhorando e começamos a conseguir algumas gigs. Tocávamos em saraus de colégios, festas de cidades de interior, feiras, bailes de clubes e onde mais arrumássemos testemunhas para nos ouvir. Tivemos vários nomes (Inkilinus, Anonimato sem Cachorro, Complexo R…) e chegamos a gravar “demos”, que enviávamos para as rádios e acabavam devidamente engavetadas.

Chegou ao ponto de imaginarmos que poderíamos seguir carreira. Ao menos essa era o meu desejo, até que me vi chegando ao fim da faculdade de Direito, sem nenhuma perspectiva de “acontecer” como músico e com apenas alguns trocados no bolso.  A vontade de conseguir minha independência financeira falou mais alto e o sonho musical esmoreceu. Formado, decidi que iria estudar para concurso e o resto…o resto é uma outra história, que conto em outra ocasião.

A paixão, no entanto, nunca morreu. Sempre estive acompanhado de minhas guitarras, que hoje têm um armário especial para serem guardadas em minha casa. Às vezes fico muito tempo sem tocá-las e o recomeço é árduo, pois os dedos enferrujam. Mas quando volto à velha forma, tirar um solo como o de Another Brick in the Wall e tocar em cima de uma backing track bem gravada dá um prazer indescritível. É como seu eu voltasse no tempo e me imaginasse com uma sólida carreira musical. Fecho os olhos e estou de volta aos palcos.  Nessa hora eu me sinto extremamente recompensado por minha perseverança na difícil missão de aprender a tocar um instrumento. Não cheguei a ser um virtuose, nem conheço teoria musical. Aprendi insistindo, quase que por instinto. Ouvindo e tentando reproduzir. Não havia youtube, facebook, nada que pudesse ajudar. Era na raça e no calo dos dedos. Mas valeu à pena.

Hoje me divirto gravando minhas composições, publicando vídeos de solos famosos para o meu canal no youtube

e tocando bateria com amigos em uma banda cover de clássicos dos anos 60 e 70 (Cream, Blind Faith, Who, Stones etc). Sim, de uns dez anos para cá passei a tocar bateria também. Exploro isso em outra oportunidade.

A música funciona como um liberador de stress. Dá prazer e acalma. É uma de minhas terapias, que recomendo a todos. Meus filhos já estão no esquema. Um já tem a sua guitarra, ambos fazem aulas de bateria na oficina do grande Rui Motta e estão sempre expostos ao melhor Rock and Roll. Se eu deixar que aprendam nas ruas, voltarão imbecilizados musicalmente, como tantos outros.

 

6 comentários

  1. Anna · maio 19, 2014

    Adorei o post. Keep walking…

  2. nelsonlw · maio 21, 2014

    Muito bom!
    Só nós que somos viciados nisso sabemos como é !
    Abs

    • luroch · maio 21, 2014

      A chama não se apaga, Nelsinho. Abraço!

  3. Leonardo · maio 21, 2014

    Muito legal a sua história…. Parece até que você narrou o meu início na música. Na verdade acho que quase todos aqueles que um dia se aventuram a aprender algum instrumento tem um início bem parecido, aprendendo na marra e na garra.
    Enquanto lia seu texto, tive impressão de estar lendo a minha história sendo escrita por outra pessoa. Impressionante.
    A minha única diferença para você é que o disco que “mudou” a minha vida se chama The number of the beast do Iron Maiden. Do dia em que ouvi aqueles riffs, nunca mais a minha vida seria a mesma e como você, também me senti “na obrigação” de ter que executar aquilo com os meus próprios dedos, daí em diante todo o resto foi uma cópia fiel da sua história.

    Parabéns pelo texto.

    • luroch · maio 21, 2014

      Leonardo, de fato, cada um de nós teve a sua “revelação” com um álbum específico. Legal saber que você se identificou com o texto. Grande abraço!

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